sábado, 6 de outubro de 2012

A Igreja e Israel no Antigo Testamento - por Iain Duguid




No começo, Deus criou Adão e Eva para serem uma comunidade de adoração: Ele seria seu Deus e eles seriam Seu povo. A queda, entretanto, destruiu a relação deles um com o outro, assim como com Deus, uma divisão que foi aprofundada até mesmo na próxima geração, quando Caim matou seu irmão. A trajetória afastada de Deus iniciada pela linha de Caim acabou em uma falsificada comunidade de adoração em Babel (Genesis 11). Ao mesmo tempo, uma linha de verdadeiros adoradores correu através de Set até Abrão - Abraão - de quem Deus prometeu fazer uma grande nação e através de quem Ele prometeu abençoar todas as nações da terra. (Genesis 12:1-3)

Deus prometeu à Jacó, neto de Abraão, que Ele tornaria seus doze filhos em uma harmoniosa "comunidade de nações" adoradora (Genesis 28:3) que seria conhecida por seu novo nome, "Israel". Significativamente, a palavra hebraica usada aqui para "comunidade" é qāhāl, a qual a tradução grega do Antigo Testamento muitas vezes torna como ekklēsia, "igreja". Este objetivo de uma comunidade de adoração foi alcançada depois do êxodo do Egito quando o povo veio ao Monte Sinai. Lá, Deus declarou aos Israelitas que eles eram sua possessão, um reino de sacerdotes e uma santa nação (Êxodo 19:5-6). O Senhor prometeu habitar entre eles como seu Deus (Êxodo 29:45). Mas o povo não comprometeu-se a esta relação pactual com o Senhor e então eles o abandonaram. Enquanto Moisés estava no topo da montanha recebendo instrução do Senhor, o povo estava na base fabricando falsos deuses. Estava claro desde o princípio que a "santa nação" não tinha poder para viver segundo seu chamado.

Os profetas desdobram para nós o resto da história de Israel: A despeito da fidelidade de Deus para com eles, eles eram filhos corruptos e rebeldes (Isaías 1:2) e uma esposa adúltera (Oseias 1-3). Esta herança de infidelidade pertenceu igualmente aos reinos do norte e do sul: Israel e Judá eram duas irmãs (Ezequiel 16, 23) que iriam encarar, cada uma, a punição de destruição e exílio (Ezequiel 4:4-6). O Senhor não poderia habitar no meio de uma tão profana nação. Ele abandonou seu lugar escolhido de morada em Jerusalém  deixando seu povo à mercê de seus inimigos babilônicos (Ezequiel 8-11)

Mas a destruição de Israel no exílio não poderia ser o final da história. Porque o Senhor havia anexado Seu nome à Israel, a nação deveria ser restaurada pois Seu santo nome havia sido profanado entre as nações (Ezequiel 20:14). As promessas feitas no Monte Sinai tinham que ser cumpridas (Jeremias 33:20-21), então as duas nações de Israel e Judá seriam restauradas pelo Senhor em um único, reunido corpo feito de todas as famílias de Israel (Jeremias 31:1) debaixo de um único rei (Ezequiel 37:16-22). A mais importante promessa era a transformação espiritual de Israel em um povo novo, cujos insensíveis corações seriam mudados em novos corações debaixo de uma nova aliança (Jeremias 31:31-33), por um derramar do Espírito de Deus (Ezequiel 36:22-28). O novo Israel se tornaria servo do Senhor, uma luz para os gentios, trazendo cura para todas as nações (Isaías 42:6,10). Porém, o novo Israel retratado em Isaías 40-48 continuou sendo um fraco povo que necessitava de constante exortação para obedecerem, bem como encorajamento para confiar no amor fiel de Deus para com eles. Para cumprir os propósitos de Deus, um outro, um melhor Israel era requerido, um servo que tomaria o lugar de Israel, fazendo o que Israel não conseguia fazer, cumprindo seu chamado de trazer luz para as nações (Isaías 49:6)

Este servo "Israel" tomou carne na pessoa de Jesus Cristo. Desde o momento de Seu nascimento, Ele reviveu a história de Israel, descendo ao Egito, então assim ele poderia ser o verdadeiro filho que Deus chamou do Egito (Mateus 2:15, citando Oséias 11:1). Assim como Israel passou pelo Mar Vermelho, Jesus passou pelas águas do batismo (Mateus 3) antes de ser levado ao deserto, onde Ele venceu as mesmas tentações pelas quais Israel caiu (Mateus 4). No começo de Seu ministério, Jesus leu Isaías 61:1-2, declarando que a Escritura foi cumprida na presença de seus ouvintes (Lucas 4:18-19): Ele próprio era o prometido Servo sobre quem o Espírito de Deus estaria. Como o novo Israel, Jesus cumpriu perfeitamente as demandas da lei. A nova aliança que Jeremias antecipou foi estabelecida em Seu sangue (Lucas 22:20). Jesus cumpriu o design original de Deus para a santidade humana, assim incorporando pessoalmente o novo Israel que os profetas viram.

Como Jesus Cristo é Ele próprio o novo Israel, todos aqueles unidos a Ele pela fé são também incorporados ao novo Israel de Deus (Gálatas 6:16). Ele é a videira verdadeira, a clássica imagem de Israel no Antigo Testamento, e nós somos os Seus ramos (João 15). Porque Cristo é a pedra angular da casa de Deus, aqueles que estão juntos a Ele se tornam pedras vivas nesta casa (1ª Pedro 2:4-5) e podem ser descritos pela mesma terminologia que descreveu Israel no Antigo Testamento: em Cristo, nós somos "uma raça eleita, sacerdócio real, uma santa nação" (1ª Pedro 2:9-10)

Ser parte deste Israel da nova aliança é, então, não um caso de ser descendente físico de Abraão, mas ao invés disso, compartilhar o arrependimento e fé de Abraão (Lucas 3:8). O novo povo de Deus inclui Judeus e Gentios juntos (Gálatas 3:28), como ambos estão enxertados na nova oliveira, Cristo/Israel (Romanos 11:17-24). Isto não significa que Deus esqueceu Suas promessas para os descendentes físicos de Abraão (Romanos 11:1). Certamente não. Mas nem todo aquele que é descendente físico de Abraão é parte do novo Israel (Romanos 9:6). A restauração de Israel prometida nos profetas é realizada enquanto o evangelho é pregado em Jerusalém e Judeia (o reino do sul), Samaria (o reino do norte), e nos confins da terra, assim finalmente trazendo a luz de Deus para os gentios (Atos 1:8).

No livro de Apocalipse, João ouviu o povo de Deus descrito como um grupo de 144000, feito das doze tribos de Israel (Apocalipse 7:4-8). Quando ele olhou novamente, descobriu que este mesmo grupo era de uma multidão inumerável, de toda tribo e nação (Apocalipse 7:9-12). A noiva de Deus, a imagem usada no Antigo Testamento para Israel, é a Igreja, e um dia ela não mais estará contaminada pelo pecado, mas adornada para seu marido (Apocalipse 21:2). Naquele dia, o propósito e plano originais de Deus para Israel - de ter um povo unido, santo, pertencente a Ele - serão finalmente cumpridos no casamento de Cristo com a Sua Igreja.

Escrito por Iain Duguid
Texto original: Ligonier Ministries
Tradução: Jonathan Arthur Morandi

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