quinta-feira, 4 de abril de 2013

Regeneração Precede a Fé - por R.C. Sproul



Um dos momentos mais dramáticos da minha vida na formação de minha teologia aconteceu numa sala de aula. Um de meus professores foi até o quadro-negro e escreveu essas palavras em letras grossas: "A regeneração precede a fé."

Essas palavras foram um choque para o meu sistema. Eu entrei no seminário acreditando que a obra-chave do homem para efetivar o renascimento era a fé. Eu pensava que nós primeiro tinhamos que crer em Cristo para nascermos novamente. Eu usei essas palavras em ordem aqui por uma razão. Eu pensava em termos de etapas que devem ser tomadas em uma sequência. Eu coloquei a fé no começo. A ordem parecia com isso:

"Fé - renascimento - justificação"


Eu nunca havia pensado sobre isso com muito cuidado. Também não ouvi cuidadosamente as palavras de Jesus para Nicodemus. Eu pensava que mesmo que eu fosse um pecador, uma pessoa nascida da carne e vivendo na carne, eu ainda tinha uma pequena ilha de retidão, um pequeno depósito de poder espiritual deixado na minha alma para capacitar-me a responder ao Evangelho por mim mesmo. Talvez eu estivesse confuso pelo ensinamento da Igreja Católica Romana. Roma, e muitos outros ramos da Cristandade, tinha ensinado que a regeneração é graciosa; ela não pode ocorrer sem a ajuda de Deus.

Nenhum homem tem poder de ressuscitar a si mesmo da morte espiritual. A assistência divina é necessária. Essa graça, de acordo com Roma, vem na forma do que é chamado graça preveniente. "Preveniente" significa aquilo que vem de alguma outra coisa. Roma adiciona a essa graça preveniente o requerimento que nós devemos "cooperar com ela e consentir à ela" antes que ela possa tomar nossos corações.

Esse conceito de cooperação é, em seu melhor, uma meia-verdade. Sim, a fé que nós exercemos é a nossa fé. Deus não crê para nós. Quando eu respondo a Cristo, é a minha resposta, minha fé, minha confiança sendo exercida. O assunto, entretanto, vai mais fundo. A questão permanece: "Eu coopero com a graça de Deus antes de ter nascido denovo, ou a cooperação ocorre depois?" Outra forma de colocar a questão é perguntar se a regeneração é monergística ou sinergística. Ela é operativa ou cooperativa? É eficaz ou dependente? Algumas dessas palavras são termos teológicos que requerem explicação adicional.

Uma obra monergística é uma obra produzida singularmente, por uma pessoa. O prefixo mono- signfica um. A palavra erg se refere a uma unidade de trabalho. Palavras como energia são construídas sobre essa raíz. Uma obra sinergística é uma que envolve cooperação entre duas ou mais pessoas ou coisas. O prefixo sin- significa "junto com". Eu trabalhei essa distinção por uma razão. O debate entre Roma e Lutero pendurou-se sobre esse ponto. O assunto era esse: A regeneração é uma obra monergística de Deus ou uma obra sinergística que envolve cooperação entre Deus e homem? Quando meu professor escreveu "a regeneração precede a fé" no quadro-negro, ele estava claramente se posicionando com a resposta monergística. Depois que uma pessoa é regenerada, ela coopera exercendo fé e confiança. Mas a primeira etapa é obra de Deus, e de Deus somente.

A razão porque nós não cooperamos na graça regeneradora antes dela acontecer sobre nós e em nós é por não podermos. Não podemos porque somos espiritualmente mortos. Não podemos ajudar mais o Espírito Santo na vivificação de nossas almas à vida espiritual do que Lázaro poderia ajudar Jesus ressuscitá-lo dos mortos.

Quando comecei a lutar com o argumento do professor, fiquei surpreso ao aprender que esse ensinamento que me soava estranho, não era novela. Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards, George Whitefield - até mesmo o grande teólogo medieval Tomás de Aquino ensinaram essa doutrina. Tomás de Aquino é o Doctor Angelicus da Igreja Católica Romana. Por séculos seu ensinamento teológico foi aceito como dogma oficial pela maioria dos Católicos. Então ele era a última pessoa que eu esperava ver que mantinha tal visão da regeneração. Aquino ainda insistia que a graça regeneradora é operativa, não cooperativa. Aquino falou sobre graça preveniente, mas ele falou de uma graça que vem antes da fé, o que é a regeneração.

Esses gigantes da história Cristã derivaram suas visões das Santas Escrituras. A frase chave na carta de Paulo aos Efésios é: "estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)" (Ef 2:5). Aqui Paulo localiza o tempo quando ocorre a regeneração. Ela ocorre "estando nós ainda mortos". Com um raio de revelação apostólica todas as tentativas de dar a iniciativa de regeneração ao homem são esmagadas. Novamente, homens mortos não cooperam com a graça. Se a regeneração não acontece primeiro, não há possibilidade de fé.

Isso não é nada diferente do que Jesus ensinou a Nicodemus. Até que um homem primeiramente renasça, ele não tem a possibilidade de ver ou entrar no Reino de Deus. Se nós acreditamos que a fé precede a regeneração, então colocamos nossos pensamentos, e portanto nós mesmos em direta oposição não apenas aos gigantes da história Cristã mas também do ensinamento de Paulo e do próprio Senhor Jesus.

texto original: http://www.monergism.com/thethreshold/articles/onsite/sproul01.html
tradução: Jonathan Arthur Morandi

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