segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A Igreja da Ressurreição - por R.J. Rushdoony

A igreja descansa em um milagre; ela nasceu de um milagre, a ressurreição de Jesus Cristo. Podemos então dizer, de maneira bem simples: se não há ressurreição, não há igreja. O milagre sobre o qual a igreja permanece é a destruição do poder do pecado e da morte sobre nós pela ressurreição de Jesus Cristo. Como São Paulo afirma, "e, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados." (1ª Cor. 15:17)

A verdadeira igreja descansa sobre um milagre, e sobre o poder deste milagre, e portanto ela e seus membros vivem uma vida miraculosa e providencial em Cristo. A igreja então não pode se ver simplesmente como uma instituição: ela é o poder e a presença de Deus Filho na história, e é informada e guiada por Deus o Espírito Santo. O ajuntamento e organização formal da igreja seguiu a ressurreição e a ascensão. O milagre da ressurreição de Cristo significa o milagre da nossa regeneração, e nós, pelo poder e graça de Deus, ressuscitamos "juntamente com ele, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus" (Efésios 2:6). A exaltação de Cristo por meios da ressurreição e ascensão é a exaltação de humanidade nEle. Paulo diz:

1. Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados,
2. nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência,
3. entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais.
4. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou,
5. e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos,
6. e, juntamente com ele, nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus;
7. para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus.
8. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;
9. não de obras, para que ninguém se glorie. (Efésios 2:1-9)

De uma perspectiva, podemos dizer que esses versículos não dizem nada sobre a igreja; de outra, devemos dizer que eles falam tudo sobre ela. É-nos dito que fomos libertados de uma exousia, domínio, para outra, do príncipe do reino da desobediência para Cristo; fomos removidos do "príncipe da potestade do ar" deste mundo e do domínio e poder naturalístico deste reino caído, para o domínio sobrenatural, para "assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus." Não podemos negligenciar o significado de "assentar". Normalmente, na presença de um rei, um homem prostrava-se a seus pés, ou, se ele permanecesse em pé, era pela graça do rei. Pela graça é-nos feito "assentar", i.e., somos entronados e reinamos com Ele. Nosso chamado e o da igreja é um para poder e domínio em Cristo; fomos resgatados do poder e domínio de Satanás sobre "os filhos da desobediência." A ressurreição do Messias é a nossa ressurreição; Seu entronamento e ascensão são os nossos entronamento e ascensão. Porque Jesus Cristo é o cabeça ou Adão de uma nova humanidade, a igreja e os membros dessa nova humanidade são nascidos da ressurreição, e nascidos para proclamar a salvação pela ressurreição e regeneração ao domínio.

A falácia de muitos estudos sobre Efésios 2:1-9 é que esses versículos são vistos como aplicáveis somente ao indivíduo. O Império Romano era, como é a cultura moderna, atomística. Paulo fala contra esse individualismo atomista. Ele contrasta a antiga e nova humanidades, a humanidade caída governada pelo espírito de rebelião, pelo domínio de Satanás, pelo pecado, contra a nova humanidade regenerada e recriada por Jesus Cristo, o último Adão (1ª Cor. 15:45-50). As palavras de Paulo aqui são o prelúdio para sua exposição sobre a união de Cristo e da igreja (Ef. 5:21-33); ela é estabelecida no contexto de uma visão pactual do homem e da vida. O que nós também muitas vezes esquecemos, é que o Pelagianismo e o Semipelagianismo são defeituosos, não somente por causa de sua falsa doutrina do pecado, mas também por causa de sua ausência de um verdadeiro pacto. O homem é visto atomisticamente e individualmente, e portanto ele é capaz, em um certo nível, de uma aproximação independente à Deus. Ao considerar qualquer pensamento desses como indefensável, Paulo salienta a corporatividade do homem, seja em Adão ou em Cristo, e consequentemente a necessidade da igreja. Como resultado, contrário à ênfase moderna, Paulo não está salientando tanto nossa salvação, como ao contrário ele faz em Efésios 1:19 "e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder". Nós somos salvos pela graça de Deus e pela "força do seu poder", e convocados a regozijarmo-nos neste poder, não somente em nossa situação. A igreja da ressurreição então fará mais do que regozijar em sua salvação; ela conhecerá e se moverá à vitória em termos do poder de Deus, em sua miraculosa obra sobre nós, na igreja e na história. Fomos libertados do "curso deste mundo" ou do poder iníquo deste mundo que uma vez esteve sobre nós, para o poder do Deus trino. Mudamos de um estado de reprovação para um estado de regeneração, mas isso não é tudo, porque limitar o evangelho a isso é deformá-lo. Saímos do curso ímpio e naturalístico deste mundo caído, do espírito do iníquo, e entramos na obra, poder e Espírito sobrenatural do Deus trino. Mudamos da morte para a vida e da derrota para a vitória, "porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor." (Romanos 6:23)

"Assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus" é entronamento. Em Cristo o homem é restaurado ao chamado pactual para ser sacerdote, profeta e rei de Deus sobre a terra. Esse status e chamado renovado é para toda a eternidade; Paulo refere-se a isso como "séculos vindouros" para enfatizar a nós, com nossa consciência temporal, seu caráter contínuo e ininterrupto. Isso tudo é obra de Deus, não esforço e obra humanas, porque fomos ou somos salvos pela graça, na salvação nós somos passivos e Deus é ativo.

Portanto, não somente o Messias é ressurreto dos mortos, mas também é todo aquele que Ele escolheu. Paulo, em Efésios 1:19-23, fala da ressurreição de Cristo, Sua exaltação e Sua liderança sobre a igreja (Ef. 1:22-23). O Senhor ressurreto então nos ressuscita, Ele nos dá a vida, nós que estávamos mortos em pecados e transgressões. Então, Efésios 2:1ff fala do poder da ressurreição criando uma igreja e transformando um povo outrora morto, em um povo vivo. Somente ao ignorar Efésios 1:19-23 podemos então ler aqueles versículos de maneira individualista. A igreja primitiva corretamente enfatizou a doutrina dos Dois Caminhos, sobre a qual as Escrituras têm muito a dizer (e.g., Salmo 1; 34:12-22; Mat. 7:13-14; etc). Há um caminho de morte, e um caminho de vida, um caminho de derrota, e um caminho de vitória. "Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou" (Ef. 2:4), nos criou "em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas." (Ef. 2:10). Isso não é tudo: Deus, quando ainda éramos pecadores e mortos no pecado, "nos deu vida juntamente com Cristo". (Ef 2:5). Nossa regeneração está baseada na, e é um aspecto da ressurreição de Cristo. O nascimento da igreja e a nossa regeneração em Cristo são igualmente aspectos do milagre da ressurreição.

Por isso, um membro de uma igreja, ou uma igreja com uma visão derrotista está pensando em termos Pelagianos e humanistas. Tal pessoa ou igreja assume que possui somente um poder naturalista e educacional em suas mãos. Isso limita o poder da igreja de Cristo ao poder do homem e ao poder de números.

Mas a igreja e o Cristão são nascidos de um milagre, e dotados do Espírito e de poder. Pensar de maneira naturalista é negar o Senhor e a nossa fé. "Pois somos feitura dele" (Ef. 2:10), ou, como Markus Barth interpreta, "O próprio Deus nos criou da maneira que somos. No Messias Jesus nós somos criados." [1] Deus mostra em Sua palavra as boas obras as quais Ele "de antemão preparou para que andássemos nelas" (Ef. 2:10), ou, nas palavras de Barth, "essas boas obras que Deus nos forneceu como o nosso meio de vida." [2]

As boas obras são então o nosso modo de vida. Bom no Grego é agathois, aquilo que é bom em caráter e em constituição, benéfico por natureza, e, por manifestar piedade, vence o mal (Rom. 12:21). Porque Deus é bom (Mat. 19:17; Marcos 10:18; Lucas 18:19), e porque somente Ele é verdadeiramente e absolutamente bom, todas as boas obras manifestam a natureza e o poder de Deus. Crer na impotência do agathois é crer em Satanás e em seu programa (Gen. 3:1-5) como poderoso e efetivo. Negar o poder e a vitória que vence a fé (1ª João 5:4) é afirmar a vitória de Satanás. Entretanto, receber poder para fazer o bem através da obra regeneradora de Cristo significa receber poder para ser vitorioso. A Igreja da Ressurreição é uma igreja vitoriosa.

1. Markus Barth: Ephesians: Introduction, Translation and Commentary on Chapters 1-3. The Anchor Bible. (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1974). p. 226.

2. Ibid., p. 227

texto original tirado de Chalcedon Foundation
tradução: Jonathan Arthur Morandi

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