terça-feira, 18 de novembro de 2014

S. Ambrósio contra Símaco, Piper, Mohler e toda a Teologia Radical dos Dois Reinos - por Bret McAtee



Os que deixam a lei louvam o ímpio; porém os que guardam a lei contendem com eles. ~ Provérbios 28:4

No século IV A.D., a retirada de um altar pagão do Senado por parte do Imperador Graciano foi ocasião de um grande debate entre Símaco, o líder da aristocracia pagã, e o sacerdote mais hábil da Itália, Bispo Ambrósio de Milão (Santo Ambrósio). Símaco era o clássico liberal nesse debate e argumentava contra S. Ambrósio que todas as antigas religiões pagãs deveriam ser restabelecidas em Roma, e o Cristianismo não deveria ser a única religião do povo. Símaco tinha todas as qualidades que um liberal possui quando está em minoria: era tolerante, generoso e queria simplesmente a justiça. Símaco dizia que muitos caminhos levavam [o homem] a Deus e que a antiga religião de Roma, debaixo de cuja égide o estado Romano havia prosperado, deveria ser deixada em paz.


Nós então demandamos a restauração daquela condição religiosa que foi tão vantajosa para o estado. Que os governadores de cada facção e de cada opinião sejam contados. Um praticou as cerimônias de seus ancestrais; outro, não as jogou fora. Se a religião dos tempos antigos não cria um precedente, que a conivência de outro governador a crie....
[Nosso antigo imperador] inquiriu sobre a origem dos templos e expressou admiração por seus construtores. Ainda que ele próprio seguisse outra religião, ele os manteve pelo Império, pois cada um tem seus próprios costumes, seus próprios ritos....Agora, se um grande período de tempo dá autoridade a costumes religiosos, nós devemos manter a fé de muitos séculos e seguir nossos ancestrais, como eles alegremente seguiram os deles....
Deixe-me viver da minha própria maneira, porque eu sou livre....
Pedimos, então, paz aos deuses dos nossos pais e de nossa nação. É justo que toda adoração seja considerada como uma. Nós olhamos para as mesmas estrelas, o céu é um, um mesmo mundo nos rodeia. Que diferença faz as dores pelas quais cada um procura a verdade? Não podemos alcançar tão grande segredo por apenas um caminho; mas essa discussão é para pessoas tranquilas. Oferecemos agora orações, não conflito.

Leia mais uma vez as palavras desse herói da causa pagã, Símaco, e pergunte a si mesmo quão similar elas soam às palavras dos Símacos do tempo moderno dentro do clero Cristão:
Bem, os cristãos devem voltar por um momento e reconhecer que há algo importante aqui em jogo. Não existem razões para que um Cristão seja contrário a um feriado escolar muçulmano se há um grupo ou porcentagem significante de muçulmanos na comunidade - isso seria simplesmente justo e faria sentido. Não devemos reivindicar o direito de termos nossos próprios feriados no calendário e considerar a não-existência de outros feriados religiosos como um tipo de vitória Cristã. ~ Albert "Símaco" Mohler

Nós expressamos uma paixão pela supremacia de Deus... ao deixar claro que o próprio Deus é o fundamento de nosso compromisso com uma ordem democrática pluralista - não por o pluralismo ser o grande ideal, mas porque em um mundo caído a coerção legal não produzirá o reino de Deus. Cristãos concordam em dar liberdade a crenças não-Cristãs (incluindo crenças naturalistas e materialistas) não porque o compromisso com a supremacia de Deus não seja importante, mas porque esse compromisso deve ser voluntário; do contrário, ele não tem valor. Temos uma base centrada em Deus para darmos liberdade ao ateísmo. ~ John "Símaco" Piper

Contrário tanto ao Símaco antigo quanto aos Símacos modernos, S. Ambrósio permanecia sobre o princípio que o Cristianismo, como única religião verdadeira, deve necessariamente apagar todas as outras religiões assim como o Deus da Bíblia destrói a todos os outros deuses. S. Ambrósio lidou com os argumentos de Símaco, um por um, expondo a falácia de cada um deles. Em tal contexto, ele dirigiu-se a Teodósio acerca da necessidade de dar fim às antigas religiões pagãs por serem rituais vazios e ineficazes. Em 392, Teodósio, após ter obtido controle sobre todo o Império, passou uma proibição oficial ao paganismo, proibindo a todos em todo lugar, mesmo em privado, de exercerem qualquer rito da antiga religião. Esse ato de apoio à fé Cristã horrorizaria os clérigos "cristãos" Piper e Mohler.

S. Ambrósio argumenta contra Símaco, Piper e Mohler de tal maneira:
Mas, alega Símaco [e Piper e Mohler], que os altares às imagens sejam restaurados; e seus ornamentos, aos santuários. Que essa demanda seja feita por alguém que concorda com essas superstições, pois um Imperador Cristão aprendeu a honrar o altar de Cristo somente. Por que exigem eles de mãos piedosas e lábios fieis a realização do ministério de seu próprio sacrilégio? Que a voz de nosso Imperador clame apenas pelo nome de Cristo e fale somente d’Aquele de quem é consciente, pois "o coração do Rei está nas mãos do Senhor". Algum imperador pagão já ergueu um altar para Cristo? Embora exijam a restauração das coisas que já passaram, por seu próprio exemplo eles nos mostram quão grande reverência os imperadores cristãos devem ter pela religião que seguem, já que os imperadores pagãos ofereceram tudo a suas próprias superstições.

Eu respondi a esses que me provocaram como se eu não houvesse sido provocado, porque meu objetivo era refutar o Memorial[1], não expôr a superstição. Mas que o próprio memorial deles, ó Imperador, faça-te mais cuidadoso. Pois após narrarem a história de antigos príncipes que praticaram as cerimônias de seus pais, e de príncipes posteriores que não aboliram as tais; e dizendo em adição a isso que, se a prática religiosa dos mais antigos não cria um precedente, a conivência dos últimos cria; isso mostra que tu não deverias abolir os decretos de teu irmão tanto devido à tua fé – a saber, que não segues após rituais pagãos – quanto à tua afeição. Pois se por seu próprio lado eles louvaram a conivência daqueles príncipes que, embora Cristãos, não aboliram os decretos pagãos, por quanto mais tu deverás adiar o amor fratenal para que tu – que deves deixar passar algumas coisas das quais discorda dos estatutos [cristãos] de teu irmão – realizes o que julga estar de acordo com tua própria fé e com o laço de irmandade.

Ora, é verdade que nossos líderes quase não são Cristãos, mas o princípio que vemos em S. Ambrósio é um Cristão contendendo que a única religião verdadeira seja honrada como a única fé reconhecida pelo povo. Isso é contrário ao argumento que Símaco, Piper e Mohler (e toda a teologia R2K[2]) apresentam quando contendem que a única verdadeira fé do povo é a de que todas as crenças são iguais e devem ser igualmente honradas.

Com quem você permanecerá? Com o cristão Ambrósio de Milão ou com os consumados liberais Símaco, Piper, Mohler e a Teologia Radical dos Dois Reinos?

A discussão completa entre Símaco e S. Ambrósio pode ser lida em inglês 
aqui,

Artigo postado originalmente pelo rev. Bret L. McAtee em seu blog. Link original (em inglês) aqui.

Tradução: Jonathan Arthur Morandi
Revisão: Diác. Natan Cerqueira




[1] N.R.: Argumento de lembrar-se do paganismo romano dos imperadores antigos.
[2] N.R: No original, “R2K Theology” ( = “Radical Two Kingdom Theology”; em port. “Teologia Radical dos Dois Reinos”)

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