quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Reflexões acerca da quaresma sob uma perspectiva Reformada - Por Allan A. Antonio







Muitos cristãos verdadeiros têm rejeitado, seja por desconhecimento, seja pela imediata associação com o catolicismo romano, os ensinamentos trazidos pela correta observação do tempo da quaresma. Contudo, esta data celebrada pela Igreja que é, em resumo, o tempo litúrgico reservado especialmente para refletirmos sobre a conversão, as doutrinas da Fé, da Graça, além de ser um momento fundamental de preparação individual e em grupo para o tempo de Páscoa. A quaresma possui raízes muito mais profundas do que a maioria desses cristãos devotos imaginam.

A palavra ‘quaresma’ tem origem na junção de duas palavras oriundas do Latim, “quadragesima” (Quadragésimo) + dies (dia), fazendo, assim, referência ao tempo de 40 dias que antecedem a Páscoa. Sua celebração faz parte da história da Igreja Cristã e de sua tradição, assim como a prática de orar fechando os olhos. Ela é fundamentalmente um período em que devemos refletir na Palavra do Senhor e nos Catecismos, pedindo ao Todo-Poderoso que nos prepare para compreender e viver a celebração da Páscoa em sua integralidade.

Ao que tudo indica, a celebração da quaresma costumava seguir imediatamente a celebração da Epifania, tal qual a peregrinação de Jesus pelo deserto, era seguida imediatamente de seu batismo. Entretanto, logo nos primórdios da Igreja (por volta do século IV d. C.), a celebração da quaresma foi associada à da Páscoa, visto que é uma ocasião propícia para a realização de batismos, profissões de fé, e reconciliações daqueles que haviam sido excluídos da comunhão por faltas graves (isso explica o fato das principais características da quaresma serem autoexame, arrependimento, estudo da palavra e preparação para a Páscoa).

Enquanto os candidatos ao Batismo eram instruídos na Fé Cristã e os penitentes arrependidos preparavam-se por meio do jejum, da oração e do estudo das Sagradas Escrituras a fim de serem readmitidos à comunhão, toda a comunidade cristã era convidada a se juntar a eles no processo de estudo e arrependimento ao longo dos quarenta dias que antecediam a Páscoa. Durante esse tempo, os fiéis eram lembrados também da tentação que Nosso senhor Jesus Cristo suportou no deserto.

Visto não ser um sacramento, a quaresma não é de observação obrigatória, nem está diretamente ordenada nas Escrituras; no entanto, ela não deve ser rejeitada pelo fato de não ser diretamente citada na Bíblia.
Observe-se também que, ao contrário do que possa parecer, a escolha do número exato de quarenta dias não foi aleatória e arbitrária, mas foi feita com base na importância dada pela Bíblia ao número quarenta. Algumas passagens que evidenciam muito bem a relevância do numero em questão nas Escrituras são:

I) por quarenta dias e quarenta noites o dilúvio durou ( Genesis 7:4-12);
II) por quarenta dias Moisés permaneceu no monte Sinai, recebendo a Lei de Deus (Ex. 25:1-8);
III) por quarenta anos reinaram Saul (Atos 12:21), Davi (II Samuel 5:4-5) e Salomão (I Reis 11:42);   
IV) por quarenta dias nosso Senhor Jesus foi tentado no deserto (S. Mateus 4:2);       
V) por quarenta dias o Senhor Instruiu seus discípulos antes da Ascensão (Atos 1:1-3).

A quaresma não deve ser entendida como algo místico ou dotado de algum poder mágico especial. A observância desse período tem como único objetivo trazer o cristão ao centro da vida cristã, enfatizando o estudo da Palavra, a oração, o jejum e a prática da caridade Cristã (para maiores detalhes sobre a verdadeira Caridade Cristã, consulte o livro “Charity and its Fruits” escrito por Jonathan Edwards). Evidentemente, tais virtudes não devem ser cultivadas apenas durante o tempo da quaresma como se fossem obrigações legalistas e através das quais se alcançaria o favor Divino. Muito pelo contrário. A quaresma é o tempo propício para que o Cristão reflita e retome alguns aspectos da vida Cristã que podem haver sido perdidos ou enfraquecidos ao decorrer da caminhada de fé em razão da decaída natureza humana.

Assim fica fácil concluir que a observação da quaresma não se trata de uma prática idólatra, sem fundamento, carregada de misticismo e dispensável como dizem alguns. Antes de tudo, tal celebração é um convite ao arrependimento e à retomada de uma vida Cristã frutífera.



Um comentário:

  1. O QUE PENSO sobre a Quaresma?



    Minha resposta é pessoal, mas entendo que representa o pensamento geral dos presbiterianos.
    O termo “quaresma”, do latim quadragésima, refere-se aos quarenta dias de jejum determinado pela Igreja C. Romana e praticado desde a “quarta-feira de cinzas” até à véspera da Páscoa. Essa prática foi formalizada pela referida igreja no século 9º. Antes disso havia a prática de jejum antes da Páscoa, sem se tornar prática geral, nem obrigatória.
    Nos escritos de Irineu e de outros “pais” da igreja há referências a diferentes formas como era praticado o jejum como preparação para a Páscoa, mas, repito, não havia imposição nem formalização.
    A Bíblia relata a prática do jejum, tanto no Antigo Testamento como no Novo. Exemplos: Quando Samuel exortou o povo ao arrependimento por grave pecado cometido, os israelitas “jejuaram aquele dia” e confessaram: “Pecamos contra o SENHOR” (1Sm 7.6); quando o filho adulterino de Davi adoeceu, Davi jejuou e passou a noite toda prostrado em terra (2Sm 12.16); em ocasiões especiais, de grande comoção, era apregoado jejum (1Rs 21.9; 2Cr 20.3).
    Mas o jejum nem sempre era aceitável (Jr 14.12; Zc 7.5). Os discípulos de João Batista jejuavam regularmente e estranharam que os de Jesus não o fizessem (Mt 9.14). Na parábola do fariseu e o publicano, o fariseu, hipócrita, costumava jejuar, mas não foi justificado (Lc 18.12,14).
    O protestantismo histórico, reformado presbiteriano, não reconhece a quaresma porque jejum, na Bíblia, não somente não é obrigatório como também não deve ser formalizado (Excepcionalmente, em ocasiões de calamidade, pode haver convocação do povo para jejuar.). Segundo o conjunto da revelação bíblica, tanto para a celebração da Páscoa como para a vida diária, o cristão deve estar sempre se preparando com o uso dos meios de graça: a Palavra de Deus escrita; a comunhão com os irmãos na igreja, os sacramentos, a oração e a prática de boas obras.
    Em todas as coisas relacionadas com a vida cristã, o fundamental é a graça divina pela qual somos salvos mediante a fé em Jesus Cristo – o Filho eterno de Deus enviado pelo Pai ao mundo para morrer para nossa justificação e ressuscitar para vivermos a vida de Deus na terra. Mesmo os meios de graça não devem ser utilizados como fins em si, mas como meios pelos quais desenvolvemos vida de santificação e crescemos “na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 3.18).
    É importante a palavra de advertência de Jesus Cristo sobre o jejum no Evangelho segundo Mateus 6.16-18:
    “Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”.

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